"Chaos isn't a pit. Chaos is a ladder": Bancos Centrais e guerra no Irã dividem as atenções dos mercados globais
27 a 30 de abril de 2026
Por César Garritano, Economista-chefe da SOMMA Investimentos
Destaques da Semana
- A semana foi extremamente agitada para os investidores globais;
- O cenário de conflito no Oriente Médio enfrentou a concorrência de peso do noticiário econômico, com destaque para as decisões de política monetária de importantes Bancos Centrais, notadamente os encontros do Fomc e do Copom;
- No momento de divulgação deste relatório, os mercados domésticos operavam sem direção única na comparação com o término da semana anterior. Enquanto o Ibovespa (-2,0%) e a curva de juros nominal (abertura em torno de 10 bps nos vértices intermediários) registravam novo período desfavorável, o dólar perdia em torno de 1,0% frente ao real.
Cenário Internacional
Na cena global, diversas frentes de notícias influenciaram a dinâmica dos mercados, com destaque para duas em particular: o conflito no Oriente Médio e as decisões de política monetária das principais autoridades mundiais.
A respeito da guerra, que completou dois meses nesta semana, o contexto seguiu sem grandes novidades. Em outras palavras, apesar da manutenção do cessar-fogo entre EUA e Irã, não houve avanço nas tratativas para um acordo, e as partes sequer chegaram a realizar um encontro presencial para debater o tema. Diante disso, o Estreito de Ormuz seguiu virtualmente fechado, empurrando o barril de petróleo Brent para o nível máximo em quatro anos ao longo da semana.
Sobre as decisões de política monetária, o Federal Reserve (Fed), o Banco da Inglaterra (BoE), o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ) foram os protagonistas. Apesar das particularidades nos comunicados e nas coletivas de imprensa, houve pontos comuns relevantes: (i) todos mantiveram os juros inalterados; (ii) o tom geral foi hawkish, refletindo os efeitos deletérios da guerra sobre a inflação de curto prazo e as expectativas de médio e longo prazo. No entanto, na maioria dos casos, o posicionamento das autoridades monetárias foi menos conservador diante das apostas dos investidores.
- Fed: A fed funds rate foi mantida no intervalo entre 3,50% e 3,75%, em linha com o consenso. Excetuando Stephen Miran, que novamente defendeu um corte de 0,25 p.p., os demais diretores optaram pela manutenção. Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan não apoiaram o trecho do comunicado que menciona a possibilidade de nova flexibilização adiante. Essa postura imprime um viés austero à decisão, sugerindo que Kevin Warsh, que assumirá a presidência no próximo mês, terá um desafio notável para formar consensos em prol de futuros cortes. Por fim, em sua última reunião como presidente, Jerome Powell afirmou que permanecerá como governador enquanto a instituição sofrer ataques externos — em especial de Donald Trump.
- BoE: A autoridade britânica manteve a taxa inalterada em 3,75%, decisão tomada por oito diretores. Apenas Huw Pill, economista-chefe da instituição, votou por um aperto de 0,25 p.p. A comunicação veio menos conservadora do que o esperado; embora a elevação dos juros esteja no radar, a estratégia adotada é de cautela para avaliar o impacto da guerra nos dados. A piora das condições financeiras e o encarecimento dos combustíveis foram citados como fatores que devem comprimir o consumo, atuando, eventualmente, como vetores desinflacionários no médio prazo. Essa ausência de urgência em elevar a taxa de juros fez com que os trechos curtos da curva britânica fechassem com intensidade após o anúncio.
- BCE: A taxa manteve-se estável em 2,00%. O comunicado e o discurso de Christine Lagarde assemelharam-se ao tom do BoE: embora seja coerente prever algum aperto monetário na Zona do Euro em 2026, o bloco apresenta risco evidente de estagflação. Desse modo, o BCE optou por demonstrar pouca pressa, aguardando maior clareza macroeconômica.
- BoJ: A manutenção dos juros em 0,75% a.a. foi aprovada por seis votos a três, com a dissidência defendendo alta para 1,00%. Este nível de divisão, o maior da gestão Kazuo Ueda, sinaliza a proximidade de um novo aperto. Contudo, na coletiva, Ueda não confirmou se o movimento ocorreria já em junho, o que contribuiu para nova depreciação do iene. O risco de estagflação no Japão cresce à medida que o conflito no Oriente Médio se prolonga. Para o ano fiscal de 2026, o BoJ revisou o PIB de +1,0% para +0,5% e elevou a estimativa do Núcleo do CPI de +1,9% para +2,8%.
Cenário Doméstico
No Brasil, a agenda mostrou-se bastante carregada, tendo como principais drivers os indicadores de inflação, mercado de trabalho e a decisão do Copom
O IPCA-15 acelerou de 0,44% em março para 0,89% em abril, a maior taxa de variação para o mês desde 2022. Todavia, o resultado veio significativamente abaixo da mediana das projeções (+0,98%) e inferior ao piso das estimativas (+0,90% a +1,05%, segundo o Broadcast). O desvio dos analistas parece explicado por itens voláteis, a exemplo das passagens aéreas, que registraram deflação de 14,3%, contra a leve alta esperada.
Itens impactados pela guerra do Irã foram os protagonistas da leitura de abril. A gasolina subiu 6,23%, sendo a maior contribuição individual. O grupo Alimentação e Bebidas também acelerou (de +0,88% para +1,46%), pressionado por itens in natura.
Qualitativamente, o início do 2T26 traz uma face mais desfavorável para a inflação, embora existam nuances dignas de nota. Pelo lado negativo, a média dos núcleos (+0,47%) e os preços industriais (+0,65%) aceleraram e superaram as expectativas no mês de abril, sugerindo alguma contaminação do choque de oferta. Pela ótica favorável, preços livres, alimentação no domicílio, administrados e serviços subjacentes rodaram abaixo do esperado.
Com ajuste sazonal, a dinâmica do IPCA-15 ainda não indica um “ponto de não retorno”, ou seja, de que a inflação seguirá trazendo apenas notícias desfavoráveis. Ainda assim, a reabertura do Estreito de Ormuz é crucial para evitar que os efeitos de segunda ordem sejam duradouros. Mantemos nossa projeção de IPCA para 2026 em 4,7%.
O Caged de março registrou a geração líquida de 228,2 mil vagas, superando amplamente o consenso de 156 mil. Com ajuste sazonal, o ritmo de abertura de vagas acelerou de patamares próximos a 130 mil para 200 mil. O dado reflete a resiliência do emprego diante do reaquecimento da atividade no 1T26, impulsionado por medidas governamentais. A perda de tração do mercado de trabalho deve ser mais lenta que o antecipado.
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu novamente a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50%, em uma decisão unânime do colegiado e amplamente esperada pelo mercado. No comunicado, nosso entendimento é de que houve elementos tanto de ordem hawkish quanto de perspectiva dovish. Mediante isso, e considerando que os preços dos ativos estavam posicionados para um maior conservadorismo do Copom, a dubiedade provocou o fechamento de toda a curva de juros nominal do país logo após a decisão.
Embora seja coerente aguardar a Ata do Copom, na próxima terça-feira, para um entendimento mais completo do racional do Banco Central, é possível antecipar que as barras para acelerar o ritmo de cortes da taxa Selic e para interromper o ciclo de calibragem são consideravelmente elevadas. Em meio a isso, é plausível especular que o intuito do Copom, em seu próximo encontro de política monetária, seja promover novamente um corte de 0,25 p.p. no juro básico da economia.
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