"You can't always get what you want": Contexto do Oriente Médio segue nebuloso e penaliza maioria dos mercados globais
20 a 24 de abril de 2026
Por César Garritano, Economista-chefe da SOMMA Investimentos
Destaques da Semana
- A semana foi de dificuldades para a maioria dos mercados globais de risco;
- O noticiário em torno da guerra do Irã, algo mais pessimista conforme transcorriam os dias, foi inevitavelmente o principal detrator para os negócios;
- No Brasil, em semana mais vazia de indicadores e de notícias, gerou incômodo a informação de que os EUA estariam se preparando para realizar um novo tarifaço contra o nosso país;
- O fato de os mercados brasileiros estarem bastante esticados contribuiu para uma correção mais intensa de nossos ativos vis-à-vis pares globais;
- No momento de divulgação deste relatório, o Ibovespa recuava 2,8% diante do encerramento dos negócios na semana passada; o Real perdia 0,6% frente ao Dólar norte-americano; e a curva de juros nominal abria ao longo dos seus vértices.
Cenário Internacional
Os investidores globais seguiram operando sob enorme influência dos desenvolvimentos da cena geopolítica. Embora existam cessar-fogos entre os EUA e o Irã e entre Israel e o Líbano – deliberações recentes que certamente têm contribuído para alguma diminuição da ansiedade dos mercados –, é importante ressaltar que uma solução ainda parece distante, o que torna o ambiente geopolítico frágil.A principal notícia da semana foi o fracasso no que tange à concretização da rodada de negociações entre os EUA e o Irã, pré-agendada para a quarta-feira (22/abr). Negociadores de ambos os lados sequer viajaram para Islamabad, capital do Paquistão, virtual palco das conversas. A desconfiança entre as partes envolvidas segue elevada e o progresso em termos diplomáticos pode ser classificado como paralisado.
Ao longo da semana, as informações em torno do Estreito de Ormuz ganharam centralidade. Objetivamente, é possível dizer que a rota segue inoperante – ao contrário da expectativa de reabertura anunciada ao término da semana passada. A rápida reviravolta ocorreu porque, apesar do cessar-fogo, os norte-americanos continuaram bloqueando embarcações que tentam entrar e sair dos portos do Irã – o objetivo, com essa ação, é pressionar as lideranças iranianas a aceitarem os termos de negociações mais favoráveis aos EUA. Obviamente, esse contexto foi identificado pelo Irã como mais uma traição, em meio às decisões sempre muito voláteis e pouco claras do presidente Donald Trump.
Em termos de mercado financeiro, o desenrolar do noticiário da semana promoveu valorização do barril de petróleo, apreciação do dólar norte-americano, abertura das curvas de juros nominais e queda da maioria das bolsas de valores. Ou seja, a semana foi de perdas para a maioria dos ativos de risco.
É de grande valia argumentar, no entanto, que os investidores, ao menos por ora, estão longe de demonstrarem pânico. A leitura que tem prevalecido – com a qual concordamos – é de que alguma concertação entre os lados deverá ocorrer. Aliás, no começo da tarde brasileira desta sexta-feira, o noticiário voltou a trazer a chance de os atores envolvidos retornarem à mesa de negociações. Ao mesmo tempo, recentes notícias do setor de tecnologia, alvissareiras em termos de evolução da Inteligência Artificial, têm atuado como importantes escudos para diversos mercados e ativos.
Todavia, tão importante quanto a análise acima, é ponderar que o tempo também corre contra as apostas mais otimistas. Em outras palavras, é imprescindível o surgimento de algum tipo de consenso que consiga, no curto prazo, o restabelecimento do fluxo de embarcações no estreito de Ormuz. Do contrário, a realidade poderá ser bastante dura para as economias e para os mercados globais, com diversos países e blocos podendo vivenciar episódios de estagflação.
Cenário Doméstico
No Brasil, em período mais esvaziado de divulgação de indicadores econômicos, duas são as frentes de debate neste relatório.
De um lado, ressalta-se que a semana atual é a véspera da próxima reunião do Copom. Mediante a falta de resolução da guerra do Irã, dos ainda elevados preços do petróleo, da deterioração das expectativas de inflação do Brasil e do posicionamento conservador da autoridade monetária em recentes discursos, não mais acreditamos em um corte de 0,50 p.p. na taxa Selic na quarta-feira (29/abr). Agora, a hipótese de trabalho é a de que o Banco Central promova novo corte de 0,25 p.p., eventualmente podendo acelerar o ritmo de cortes quando houver alguma melhora da cena geopolítica. Quanto à taxa Selic terminal em 2026, elevamos de 12,00% para 12,50% – patamar abaixo da mediana das previsões dos economistas no recente relatório Focus (13,00%).
De outro lado, de acordo com a CNN, os EUA preparam um novo “tarifaço” de aproximadamente 30% sobre produtos brasileiros, impulsionado por investigações do Escritório do Representante do Comércio (USTR) sobre o que Washington considera práticas comerciais injustas, incluindo o sistema PIX, falhas na proteção de propriedade intelectual e crimes ambientais na Amazônia. Embora itens que pressionam a inflação americana, como café e carne, possam ser poupados, setores estratégicos como o de etanol estão no centro do alvo. Caso essa medida se concretize, o cenário para os mercados brasileiros torna-se duplamente negativo, em nossa avaliação: de um lado, há o impacto econômico direto na competitividade das exportações e no fluxo comercial; de outro, conforme observado em episódio similar em meados de 2025, o movimento oferece ao presidente Lula o pretexto ideal para reativar o discurso de defesa da “soberania” e o embate contra um “inimigo externo”. Essa eventual capitalização política tende a elevar os índices de aprovação presidencial a poucos meses das eleições gerais.
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