O mercado de relógios de luxo entrou em 2026 dando dois sinais opostos ao mesmo tempo. Em maio, Genebra sediou o maior leilão de relógios da história. No mesmo período, a indústria relojoeira suíça fechou o segundo ano seguido de queda nas exportações.
Os dois fatos são verdadeiros, e a contradição é só aparente. O mercado se partiu em dois. No topo, peças raras batem recorde atrás de recorde. Na base, a produção encolhe e a revenda apenas se estabiliza. Este texto trata dessa divisão e, sobretudo, do que decide de que lado cada relógio vai parar. A resposta curta cabe em três palavras: escassez, procedência e demanda. O resto do artigo mostra como elas operaram em 2026.
O topo do mercado nunca esteve tão forte
Comece pelos números que viraram manchete. A casa Phillips, ao lado dos consultores Aurel Bacs e Livia Russo, conduziu em 9 e 10 de maio o Geneva Watch Auction: XXIII e somou US$ 96,3 milhões, o maior faturamento de um leilão de relógios já registrado, segundo a Forbes. Dos 225 lotes, só um não vendeu. Quatorze passaram de CHF 1 milhão cada, e a noite estabeleceu 43 recordes mundiais.
A peça que resumiu o pregão foi um Patek Philippe Ref. 2523 “South America”, relógio world-time de 1953 em ouro amarelo, com mostrador em esmalte cloisonné trazendo o mapa da América do Sul. Saiu por US$ 10,2 milhões, o dobro da estimativa, recorde para a referência e apenas o segundo Patek a ultrapassar US$ 10 milhões em leilão público de lote único.
Dois dias depois, a Christie’s confirmou que não era um caso isolado. Sua venda Rare Watches, nos dias 11 e 12, fez US$ 42,3 milhões, o melhor resultado de um leilão de vários proprietários na história da casa, com 99% dos 228 lotes vendidos e compradores de EMEA, Ásia e Estados Unidos disputando os mesmos relógios. Se o leilão fosse o único termômetro, o diagnóstico seria de euforia. Ele não é.
A indústria, no entanto, encolheu
Fora dos holofotes de Genebra, o quadro se inverte. As exportações suíças de relógios caíram 1,7% em 2025, para CHF 25,6 bilhões, segundo a Federação da Indústria Relojoeira Suíça (FH). Foi o segundo ano seguido de recuo. Em volume, a queda foi maior: 14,6 milhões de peças, 740 mil a menos que no ano anterior. Nem o segmento premium escapou, com os relógios acima de CHF 3.000 recuando 1,9%.
Por trás disso está a China, que já foi motor de crescimento e encolheu mais de um terço em dois anos, somada à alta do ouro e do franco suíço, que empurrou os preços de varejo para cima no mundo todo. Houve contraponto nos Estados Unidos, que fecharam dezembro de 2025 com salto de 19,2%, e a FH projeta um 2026 mais equilibrado. Ainda assim, o recado é claro: uma peça de US$ 10 milhões diz respeito a um punhado de colecionadores, não ao volume que sai das fábricas. É essa distância entre o extraordinário e o comum que define o mercado de 2026.
No meio, a revenda voltou a subir com seletividade
Entre o lote de leilão e a vitrine da boutique está o mercado onde a maioria dos relógios de luxo realmente circula: o de revenda. E é ali que dá para medir a temperatura real. Quem acompanhou o setor entre 2021 e 2022 viu preços subirem como ações de hype, com um Rolex Daytona ou um Patek Nautilus valendo o dobro da etiqueta no dia da compra. Aquilo não se sustentou. Em 2026, a palavra que os analistas usam é normalização, não colapso.
Depois de três anos praticamente de lado, os preços voltaram a subir de forma seletiva. Segundo índices da WatchCharts citados pela Forbes em maio de 2026, o índice da Patek Philippe avançou cerca de 18% em doze meses, o da Rolex 9% e o da Audemars Piguet 5%. Já o Knight Frank Luxury Investment Index de 2026 registrou alta de 5,1% para relógios no último ano e de 38,6% na década, com o índice geral de luxo fechando 2025 quase estável, em leve queda de 0,4%.
| Marca | Índice em 12 meses | Leitura |
|---|---|---|
| Patek Philippe | cerca de +18% | Aquanaut e Nautilus puxando a valorização |
| Rolex | cerca de +9% | núcleo do volume de negociação, alta consistente |
| Audemars Piguet | cerca de +5% | recuperação mais modesta |
A revenda certificada pela própria marca, com programas como o Rolex Certified Pre-Owned e o da Vacheron Constantin, ajudou nessa recuperação ao trazer confiança e estabilidade de preço a um mercado antes dominado por intermediários. Mas a alta é desigual: sobe o que tem procura consistente, e o resto fica de lado. O que nos leva à pergunta que organiza todo o mercado de 2026: o que separa o relógio que dispara do que empaca?
O que decide de que lado uma peça fica
O que move esses valores não é apenas luxo. São três forças, e vale destrinchar cada uma, porque é aí que mora a diferença entre a peça de recorde e a que fica parada.
Escassez real não é a mesma coisa que edição limitada de marketing. O Patek 2523 “South America” existe em dois exemplares conhecidos. Um Cartier Crash original é raro por acidente histórico, não por decreto comercial. Já uma referência fabricada às centenas de milhares, por mais desejada que seja no lançamento, dificilmente vira item de leilão milionário.
Procedência é a história documentada da peça: quem foram os donos, se veio direto do ateliê, se tem papéis e caixa originais, se passou por restauro. Um relógio com dono ilustre e documentação impecável vale um múltiplo de um exemplar idêntico sem rastro. Foi o que sustentou boa parte dos recordes de Genebra.
Demanda internacional é o que dá liquidez. Quando compradores de três continentes disputam o mesmo lote, o preço encontra piso alto. Na prática, o que envelhece bem não costuma ser a marca no mostrador, e sim a soma de raridade verdadeira, condição original e história que se possa comprovar.
Essas mesmas forças explicam por que a arte viveu a temporada que viveu. Em novembro de 2025, o retrato “Portrait of Elisabeth Lederer”, de Gustav Klimt, foi vendido por US$ 236,4 milhões na Sotheby’s, a obra de arte moderna mais valiosa já leiloada e a segunda mais cara da história dos leilões. Em maio de 2026, um Mark Rothko de 1964 fez US$ 98,4 milhões na Christie’s, recorde do artista. Relógios e obras dividem a mesma base de compradores e a mesma lógica, e não por acaso índices de patrimônio como o Knight Frank tratam os dois lado a lado. No topo, uma peça reúne as três forças. No meio do mercado, quase nunca reúne nenhuma. Essa é a fratura de 2026 em uma frase.
Perguntas frequentes sobre o mercado de relógios de luxo
Relógio de luxo é um bom investimento?
Depende muito da peça. Relógios raros de marcas como Patek Philippe e Rolex mostraram valorização real na década, com o índice de relógios do Knight Frank subindo 38,6% em dez anos. Mas o retorno se concentra em poucos modelos de escassez comprovada, e a maioria dos relógios de luxo perde valor de revenda como qualquer bem de consumo. É um ativo ilíquido, sem renda, com custo de seguro e guarda. Faz sentido como ativo de paixão dentro de um patrimônio diversificado, não como aposta de retorno garantido.
Quais marcas de relógio mais se valorizam?
Em 2026, Patek Philippe lidera a valorização no mercado secundário, com destaque para as linhas Aquanaut e Nautilus, seguida por Rolex, que concentra o maior volume de negociação com Daytona, Submariner e GMT-Master II. Audemars Piguet aparece logo atrás, com o Royal Oak. Essas três marcas estruturam o mercado de revenda global. Fora delas, nomes da alta relojoaria independente, como F.P. Journe, ganharam força nos leilões.
O que leva um relógio a bater recorde em leilão?
A combinação de raridade extrema (poucos exemplares conhecidos), procedência documentada (donos ilustres, papéis e caixa originais), condição próxima da original (sem polimento agressivo ou peças trocadas) e relevância histórica ou técnica. O Patek 2523 “South America”, com dois exemplares conhecidos e mostrador em esmalte, reúne tudo isso. Sem essa soma, mesmo uma marca de prestígio dificilmente chega a valores de manchete.
O que observar no resto de 2026
A pergunta que fica não é se os recordes continuam, e sim onde o dinheiro vai se concentrar. A projeção da indústria é de estabilidade, com os Estados Unidos como possível vento a favor e a China ainda sem sinal de recuperação. Nesse cenário, a fratura tende a se aprofundar: liquidez e valorização migrando para o que é raro, íntegro e bem documentado, enquanto o meio do mercado segue de lado.
Para quem enxerga um relógio como parte do patrimônio, e não só como objeto de desejo, a leitura é direta. O que decide o valor de uma peça é o mesmo que decide o de qualquer ativo relevante: raridade, história comprovável e procura real. Sem isso, é consumo, não reserva de valor.
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