"Jogamos como nunca, perdemos como sempre": apesar de indicadores econômicos favoráveis, Oriente Médio e novo tarifaço de Trump punem mercados brasileiros
13 a 17 de julho de 2026
Por César Garritano, Economista-chefe da SOMMA Investimentos
Destaques da Semana
- A semana foi de dificuldades para os mercados domésticos, em especial para a renda variável e para a curva de juros nominal;
- Apesar dos indicadores da economia dos EUA e do Brasil oferecerem algum conforto de curto prazo para as estratégias ora colocadas em prática pelo FOMC e pelo Copom, outros fatores demonstram capacidade para atuarem como desagradáveis contrapontos;
- Em especial, menciona-se a confirmação de uma nova rodada de tarifação dos EUA contra o Brasil;
- No momento de divulgação deste relatório, o Ibovespa caía 2,6% na comparação com a semana passada, retornando para a faixa dos 173 mil pontos; a curva de juros abria 35 bps nos vencimentos intermediários; e o Real oscilava em torno da estabilidade diante do dólar.
Cenário Internacional
O cenário internacional contemplou diversas informações relevantes do campo macroeconômico, em especial dos EUA e da China.
Nos EUA, o compilado do noticiário contribuiu para o arrefecimento das apostas de elevação da taxa de juros pelo Fed, ao menos no curtíssimo prazo.
Pelo lado inflacionário, dois indicadores foram divulgados: o índice de preços ao consumidor (CPI) e o índice de preços ao produtor (PPI), ambos com divulgações referentes ao mês de junho. Nossa avaliação, através da análise conjunta desses dois índices e do entendimento da conjuntura, é a de que o pico inflacionário recente deve ter ocorrido em maio.
O CPI saiu de alta de 0,47% M/M em maio para deflação de 0,42% M/M em junho, queda muito mais pronunciada diante das expectativas (-0,1%). Esse relevante recuo não se limitou a um ou a poucos itens específicos. Em outras palavras, houve importante espalhamento de deflações ou de desacelerações dos itens que compõem o CPI. Assim, as medidas de núcleo de inflação tiveram desempenho favorável, a exemplo do core goods (de -0,1% para -0,1%, expectativa: 0,0%), do core services (de +0,3% para 0,0%, expectativa: +0,3%) e do supercore (de +0,3% para -0,2%, expectativa: +0,4%).
Já o PPI passou de aumento de +0,62% M/M para deflação de -0,28%, também abaixo do que era esperado (0,0%). O núcleo do PPI, que exclui alimentos, energia e comércio internacional registrou forte perda de força de alta, de +0,8% para +0,1%.
Além dessas duas divulgações referentes à dinâmica inflacionária, destaque para as inúmeras declarações dos diretores do Fed. Embora essas falas não tenham apresentado um direcionamento único, ou seja, pudemos acompanhar abordagens hawkish misturadas com posicionamentos dovish, inequivocamente o grande destaque foi o depoimento de Kevin Warsh no Congresso Nacional dos EUA. Em linhas gerais, o novo presidente do Fed tentou não promover alterações dignas de nota comparativamente ao que já conhecido pelos investidores em documentos oficiais escritos entre junho e começo de julho. Porém, quando confrontado por um senador sobre os efeitos do avanço tecnológico sobre o custo de vida da população, Warsh reconheceu que o tema é controverso – inclusive dentro do board do FOMC –, mas sinalizou ceticismo quanto a virtuais efeitos altistas para a inflação.
A combinação das leituras de inflação e do discurso de Warsh praticamente apagou as apostas, contidas na curva de juros e nos mercados derivativos, de que o Fed promoverá aumento da taxa de juros em sua reunião de julho. Ainda assim, mediante a continuidade do cenário adverso no Oriente Médio, ao fortalecimento das condições de emprego e ao posicionamento duro de muitos membros do Banco Central dos EUA, o mercado ainda segue projetando ao menos um hike nas fed funds rate neste ano. Do nosso lado, a visão é a de que o Fed não promoverá qualquer ajuste monetário ao longo de 2026 e 2027.
Na China, os pesos-pesados PIB, produção industrial e vendas no varejo foram divulgados. Embora o PIB do 2T26 tenha desacelerado de maneira mais intensa do que o esperado, os dados da indústria e do varejo, mais atuais por serem de junho, superaram as expectativas. Desse modo, apesar de acreditarmos na hipótese de um anúncio de medidas de apoio econômico pelas lideranças da China em algum momento do segundo semestre de 2026, os dados do mês de junho retiraram a urgência, ao menos no curto prazo, de eventual decisão nesse sentido.
O PIB desacelerou de +5,0% A/A no 1T26 para +4,3% A/A no 2T26, abaixo do esperado (+4,5%). Com isso, após a resiliência da atividade econômica nos primeiros meses do ano, o último trimestre se mostrou mais desafiador, em meio ao contexto geopolítico mais turbulento e ao consumo interno fraco do país. A produção industrial, por sua vez, acelerou de +4,5% A/A em maio para +5,3% A/A em junho, ao passo que as vendas no varejo, no mesmo recorte temporal, saíram da contração de 0,1% A/A para uma alta de +1,0% A/A. As expectativas eram de aumento de 4,6% e de recuo de 0,1%, respectivamente.
Cenário Doméstico
No contexto brasileiro, a agenda econômica mostrou-se bastante agitada, especialmente através dos resultados de indicadores que medem a atividade econômica: Pesquisa Mensal de Serviços (PMS, IBGE), Pesquisa Mensal do Comércio (PMC, IBGE) e IBC-Br (BCB), todos com dados de maio.
A despeito de a leitura agregada desses indicadores ter mostrado perda de força mais intensa da atividade econômica no quinto mês do ano, sugerindo que, de fato, a economia está em processo de desaceleração no 2T26 e que o Copom terá motivação adicional para seguir calibrando a Selic, a imposição de novas tarifas pelos EUA contra o Brasil atuou como importante limitador para o desempenho dos mercados domésticos, em especial para a renda variável.
O novo tarifaço, além de aumentar o grau de incerteza e de desconfiança entre os países, na prática poderá ser usado, mais uma vez, como ferramenta política por parte do presidente Lula em sua tentativa de reeleição.
A PMS mostrou que o volume de serviços prestados recuou 0,4% M/M, resultado abaixo da expectativa de mercado (-0,1%). A média móvel trimestral (MM3) tem mostrado que a atividade de serviços apresenta estabilidade desde o encerramento do ano passado, havendo, inclusive, leve viés de queda para o setor. Em tal métrica, mencionam-se os recuos dos outros serviços (-0,6%) e dos Transportes, Serviços Auxiliares aos Transportes e Correio (-0,6%). No acumulado em doze meses, a PMS desacelerou de +2,9% em abril para +2,6% em maio, sendo essa a taxa mais baixa desde setembro de 2024 (+2,3%).
A PMC revelou queda de 0,2% M/M das vendas no varejo no conceito ampliado, contrariando de forma ampla o consenso do mercado financeiro, que era de alta de 0,8%. Esse resultado torna-se mais negativo a partir do momento em que o indicador havia apresentado contração nos meses de março (-0,1%) e de abril (-0,7%). A MM3 da PMC ampliada, ao recuar 0,3%, voltou para o terreno de queda pela primeira vez desde agosto do ano passado.
O IBC-Br desacelerou de +0,40% M/M para +0,07% M/M, na passagem de abril para maio, numa leitura pouco acima das expectativas (-0,1%). Na comparação em 12 meses, o índice seguiu em processo de desaceleração, atingindo alta de 1,35% – a mais baixa desde maio de 2021 (+1,09%).
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