Economia Americana deve apresentar forte expansão em 2021

01/03/2021

Economia Americana deve apresentar forte expansão em 2021

A economia americana apresentou uma contração de 3,5% em 2020. Apesar deste ter sido o pior resultado desde a 2ª Guerra Mundial, o cenário para 2021 é amplamente favorável, o que deve culminar na mais forte expansão da economia norte-americana desde a década de 1980.

Contribuirá para um forte crescimento neste ano a ampla vacinação da população contra a Covid-19, que deve possibilitar um amplo relaxamento das medidas restritivas de distanciamento social – impostas na maior parte dos estados do país em 2020.

Além disso, um impulso adicional ao crescimento deve ser fornecido pelo nível elevado de suporte de políticas econômicas – tanto na esfera fiscal, onde o Congresso deve aprovar mais um pacote trilionário de estímulos, quanto monetária, onde o Fed tem sinalizado que ainda está distante de uma mudança na postura amplamente acomodatícia.

Diante disso, o objetivo deste comentário é apresentar o cenário para a atividade econômica nos EUA para o ano de 2021.

Coronavírus: queda no número de hospitalizações e vacinação em andamento mantém perspectivas positivas

A pandemia da Covid-19 atingiu os EUA de maneira severa. O país foi o que registrou o maior número de casos (mais de 28 milhões) e de mortes (superior a 500 mil) confirmadas pela doença.

Apesar de ainda seguir assolando o país, conforme apresentado na Figura 1, o número de novos casos confirmados diariamente pela doença apresentou recuo significativo desde o pico registrado no começo deste ano. Nos 7 dias até esta quarta-feira (24), o país registrou uma média de 73,3 mil casos e, nos últimos 14 dias, em média, 84,5 mil casos. Apesar de ainda ser um número consideravelmente maior do que o registrado durante a primeira onda da pandemia, esses números representam cerca de 1/3 (um terço) dos casos confirmados na primeira metade de janeiro.

Figura 1: Novos casos de Covid-19 nos EUA (Média Móvel de 7 dias e de 14 dias);
Fonte: Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Além disso, a queda no número de novos casos foi acompanhada por uma redução expressiva no número de hospitalizações por Covid-19. Até o começo desta semana, haviam pouco menos de 60 mil pessoas internadas nos EUA, o que representa menos da metade do número de internações do começo deste ano.

Com relação à vacinação, os EUA já aplicaram um número de doses equivalente a mais de 20% da população. Apesar de estar atrás do Reino Unido, considerando a proporção da população que recebeu ao menos uma dose da vacina, os EUA estão adiantados em relação à União Europeia (cuja proporção de vacinas aplicadas é consideravelmente menor) e em relação à maioria dos demais países.

Figura 2: Número de doses de vacinas contra a Covid-19 aplicadas;
Fonte: Our World in Data. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Assim, tendo em vista a trajetória de queda no número de novos casos e de internações pela Covid-19, além do andamento do processo de imunização no país, é possível vislumbrar um relaxamento das medidas de distanciamento social impostas desde o ano passado. O afrouxamento dessas restrições possibilitará uma sólida recuperação da atividade econômica, sobretudo nos setores mais atingidos pela pandemia (Serviços).

Política Fiscal

Não obstante à melhora nos números da pandemia no país, o governo americano deve aprovar um novo programa de estímulo fiscal – aumento de gasto público – com um pacote de aproximadamente US$ 1,9 trilhão.

Conforme apresentado na Tabela 1, as medidas incluídas no programa são abrangentes e incluem, entre outras coisas, recursos para a reabertura de escolas, para vacinação, suporte financeiro a governos estaduais e locais, além de ajuda direta às famílias.

Tabela 1: Composição do mais recente pacote fiscal nos EUA;
Fonte: Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

A magnitude deste pacote fiscal (aproximadamente 9% do PIB do país) deve proporcionar um forte impulso ao crescimento do PIB neste ano. Estimativas apontam para um nível de atividade aproximadamente 4% maior ao final deste ano, quando comparado a um cenário sem este gasto adicional.

Política Monetária: O que esperar do Fed?

Além do forte estímulo fiscal, a política monetária americana também deve continuar oferecendo suporte à atividade econômica.

Com a promessa de manter a taxa básica de juros na faixa entre 0% e 0,25%, e um programa de compras de ativos (quantitative easing) de, ao menos, US$ 120 bilhões por mês, o Fed não deve conduzir mudanças expressivas na política monetária até alcançar um progresso substancial em suas metas de emprego e de estabilidade de preços. Assim, não são esperadas mudanças expressivas na política monetária norte-americana ao longo deste ano.

A principal razão para isso é que, a despeito do forte crescimento esperado para este ano, a economia americana ainda deverá apresentar um nível considerável de ociosidade, sobretudo no mercado de trabalho. Conforme apresentado na Figura 3, a despeito da queda na taxa de desemprego (além de suas medidas subjacentes), desde o pior momento da crise econômica provocada pela Covid-19, o nível de desemprego no país segue consideravelmente acima do patamar pré-pandemia.

Figura 3: Taxa de Desemprego dos EUA;
Fonte: Fed. Elaboração: SOMMA Investimentos.

À medida que a economia americana se aproxime de um patamar inferior a 5% para a taxa de desemprego – o que deve acontecer ao final deste ano –, acreditamos que o Fed deva indicar o início do tapering (isto é, a redução no volume de compras de ativos).

No entanto, não esperamos que o BC americano eleve a taxas de juros antes do final de 2022.  A mudança de framework do Fed, com a introdução do Average Inflation Targeting no ano passado, contribuirá com uma postura mais leniente da autoridade monetária americana com a inflação – uma vez que deve aceitar – uma inflação moderadamente acima da meta de 2% por algum tempo.

Atividade Econômica

Em 2020, a economia americana apresentou uma contração de 3,5%, que foi a maior desde a 2ª Guerra Mundial. Conforme apresentado na Tabela 2, que faz um apanhado de indicadores de atividade econômica e de confiança da economia americana, o ápice da crise econômica ocorreu durante os meses de abril e maio – quando as medidas mais duras de isolamento social estavam em vigor no país.

Desde então, a maioria dos indicadores de atividade mostra um cenário de recuperação da atividade econômica. A principal fraqueza é apresentada pelos indicadores de confiança do consumidor, o que se deve, entre outras coisas, ao estágio de recuperação do mercado de trabalho. Ainda, indicadores de atividade de serviços, manufatura e do mercado imobiliário (housing) mostram uma forte expansão nos últimos meses.

Tabela 2: Indicadores de Atividade Econômica dos EUA;
Fonte: Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Assim, a economia americana já iniciou 2021 em expansão. Avaliando prospectivamente, a vacinação de uma parcela maior da população, a concessão de um montante elevado de benefícios fiscais – que se somarão a um nível de poupança já elevado das famílias americanas – e a manutenção de taxas de juros baixas permitirão um forte crescimento do PIB neste ano.

A mediana das expectativas (compiladas pela Bloomberg) indica um consenso para um crescimento ligeiramente abaixo de 5% para este ano e de 3,6% para 2022. Caso estes números se confirmem, a economia americana deve retomar o patamar pré-pandemia antes do final deste ano.

Figura 4: Crescimento do PIB dos EUA;
Fonte: Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Considerações finais

Em resumo, portanto, estamos otimistas com o cenário para a economia americana. A melhora na situação da pandemia e o prognóstico positivo para a imunização no país, em conjunto com um amplo suporte das políticas fiscal e monetária devem levar a um forte crescimento neste ano.

Apesar do crescimento robusto da atividade, que deve levar a uma aceleração da inflação nos próximos meses e trimestres, não vemos uma mudança de postura na condução da política monetária nos EUA. Este pano de fundo de recuperação econômica e liquidez abundante deve ser amplamente benéfico para as economias emergentes, sobretudo as produtoras de commodities e as que possuem uma relação comercial mais estreita com os EUA – casos de Brasil e México, respectivamente. Neste sentido, um risco relevante para este cenário positivo e para os países emergentes seria um aumento mais pronunciado da inflação nos EUA, que levasse a uma piora das condições financeiras globais.

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