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“Diga-me com quem andas e eu te direi quem tu és”: coletiva de imprensa de Kevin Warsh foi o principal tema para os mercados globais

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Cenario Economico
27 a 31 de julho de 2026
Por César Garritano, Economista-chefe da SOMMA Investimentos

Destaques da Semana

  • A semana foi favorável para os mercados financeiros domésticos;
  • A postura de Kevin Warsh em coletiva de imprensa após decisão de juros pelo Fed, na tarde de quarta-feira, apesar de ter arranhado a credibilidade do chairman, contribuiu para o aumento das apostas de que o Banco Central dos EUA talvez não tenha que subir a taxa de juros neste ano;
  • A leitura de inflação do PCE dos EUA do mês de junho, abaixo do esperado nas suas principais métricas de núcleo, colaborou para aumentar essa percepção;
  • No Brasil, nesta semana que antecedeu a próxima reunião do Copom, dados de inflação e do mercado de trabalho reforçaram a expectativa de que o Banco Central do país ainda tem espaço para continuar calibrando a política monetária;
  • No momento de envio deste relatório, o Real apreciava 0,3% diante do Dólar, o Ibovespa subia 2,4% e a curva de juros nominal fechava em torno de 30 bps nos trechos intermediários.

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Cenário Internacional

Na conjuntura global, diversos eventos de enorme relevância foram acompanhados muito de perto pelos investidores, a exemplo das decisões de política monetária dos Bancos Centrais do Reino Unido (BoE) e do Japão (BoJ), bem como a continuidade do cenário de guerra no Oriente Médio. Entretanto, em que pese a importância dos eventos mencionados, foi a evolução da agenda norte-americana o grande destaque do período.
O Federal Reserve (Fed) optou por manter a taxa de juros inalterada na faixa entre 3,50% e 3,75%, em um movimento por nós antecipado, mas que estava longe de ser consenso entre os investidores. Essa decisão do Fed não foi unânime, com três diretores defendendo elevação da taxa em 0,25 p.p. O incomum nível de dissidência dentro do Comitê e as palavras iniciais de Kevin Warsh, presidente do Fed, em sua coletiva de imprensa, notadamente de conteúdo mais conservador, sugeriam que o caminho para um iminente aumento de juros pelo BC dos EUA era a aposta mais razoável.
Porém, conforme a coletiva de Warsh transcorria, foi ficando claro que, apesar das duras palavras, não havia um plano prático para conter as pressões inflacionárias. Além disso, a tentativa de Warsh de creditar aos próprios mercados a função de restringir o aquecimento da atividade econômica (em especial, através da pressão altista das taxas das Treasuries de longo prazo), o downplay na métrica do PCE como ferramenta para entender a dinâmica inflacionária e a ausência de sinalizações sobre os próximos passos de política monetária nos EUA foram outros pontos extremamente criticados pelos analistas.
Do nosso lado, neste momento decidimos manter nosso call de não alteração da taxa de juros pelo Fed em 2026. Respaldando essa avaliação, além da própria postura de Warsh acima mencionada, a qual, ao fim e ao cabo, pode ser classificada como mais leniente com a inflação, apostamos em alguma perda de tração da atividade econômica nos próximos meses. Acreditamos que esse esperado arrefecimento da economia contribuirá para a confecção de números relativamente confortáveis para a inflação corrente, abrindo espaço para algum recuo das expectativas inflacionárias e para uma perda de dinamismo do mercado de trabalho.
Nesse cenário, os indicadores conhecidos ao longo da semana, tanto de atividade quanto de inflação, passaram a ser observados com ainda mais atenção pelo mercado.
A primeira divulgação do PIB do 2T26 apresentou crescimento trimestral anualizado de 1,5%, abaixo da expectativa de mercado (2,0%) e representando desaceleração frente ao 1T26 (2,1%). O resultado foi puxado pela queda dos gastos do governo, sobretudo investimentos federais não relacionados à defesa, além de uma balança comercial deficitária. Os demais componentes de demanda interna, no entanto, contam uma história diferente: consumo das famílias e Formação Bruta de Capital Fixo aceleraram na comparação com o trimestre anterior.
Essa força da demanda privada fica evidente no índice "vendas finais para compradores internos privados", métrica que exclui estoques, gastos do governo e setor externo, que passou de 1,7% no 1T26 para 3,9% no 2T26. Ou seja, a desaceleração do headline reflete principalmente componentes mais voláteis e o corte de gastos federais, enquanto a demanda privada doméstica segue ganhando tração.
PIB dos EUA no 2T26 em taxas anualizadas e vendas finais a compradores internos privados (consumo mais FBKF) O Índice de Preços para Gastos com Consumo Pessoal (PCE) de junho veio em linha com as expectativas do mercado, registrando alta de 0,10% M/M. Em 12 meses, o índice acumulou alta de 3,7%, ante 4,1% na leitura de maio, permanecendo acima da meta de 2,0% estabelecida pelo banco central norte-americano.
O resultado foi impulsionado quase integralmente pela queda dos preços da gasolina e de bens energéticos, que recuaram 9,2%, refletindo a redução do preço do petróleo ao longo de junho. O índice também contou com contribuição altista do grupo de serviços, com destaque para transportes, que aceleraram para 0,6%, ante 0,1% em maio. Além disso, habitação e utilidades avançaram 0,1%, enquanto saúde registrou alta de 0,3%. Já no grupo de bens, o principal destaque negativo foi o grupo de outros bens duráveis, que recuou 2,3%. No que diz respeito ao núcleo da inflação, o Core PCE avançou 0,13%, ficando abaixo da expectativa de mercado, de 0,2%, e inferior ao avanço de 0,3% observado no mês anterior.
Inflação PCE dos EUA e núcleo do PCE mês a mês em junho de 2026

Cenário Doméstico

No cenário brasileiro, destaque para a divulgação do IPCA-15, do Caged e da PNAD. De modo geral, nossa avaliação é de que a leitura conjunta dessa tríade de indicadores oferecerá conforto adicional para o Copom seguir calibrando a política monetária, ou seja, cortando a taxa Selic.
O IPCA-15 registrou expressiva desaceleração ao subir apenas 0,06% M/M em julho, ante os 0,41% de junho. Essa leitura surpreendeu enormemente os economistas, na medida em que a mediana era de alta de 0,22%, num intervalo que ia de +0,15% a +0,29%. A desaceleração foi impulsionada pelo grupo de Alimentação no Domicílio (-1,14%), com recuo pronunciado em itens in natura (tubérculos, raízes e legumes).
Do ponto de vista qualitativo, o IPCA-15 confirmou nossa expectativa de boa leitura: o índice de difusão recuou de 60% para 48%, enquanto a média dos núcleos de inflação desacelerou para 0,21%, sustentada pela perda de força dos serviços subjacentes e dos bens industriais.
Diante dessa dinâmica do IPCA-15, estimamos que o IPCA fechado de julho rodará muito próximo de 0,00%, havendo chances reais de registrar deflação no período. Nesse contexto, um IPCA acumulado em 2026 abaixo de 5,0% deixou de ser mera especulação para se tornar um cenário a cada dia mais provável, o qual, inclusive, já enxergamos como uma realidade. No entanto, vale notar que há forças que podem se mostrar como antagônicas para a dinâmica inflacionária, a exemplo dos desdobramentos do cenário eleitoral, da imprevisibilidade do Fed e do contexto climático.
IPCA-15 índice geral e grupo de alimentação no domicílio mês a mês em julho de 2026 De acordo com o Novo Caged, em junho houve a criação de 145,2 mil postos de trabalho formais (dado sem ajuste sazonal), o que representou uma aceleração frente aos 73,0 mil registrados em maio e superando a mediana das projeções (115,0 mil vagas). Na abertura setorial, houve espalhamento de abertura de vagas, cabendo destacar o setor de Serviços (+74,5 mil). Apesar do resultado acima do esperado, ao realizarmos ajuste sazonal e calcularmos a média móvel de três meses (MM3), identificamos continuidade da trajetória de perda de tração do total de vagas criadas. Esse mesmo cenário foi visto na dinâmica salarial, que voltou a mostrar desaceleração em bases anuais.
Novo Caged: saldo de empregos formais total e do setor de serviços sem ajuste sazonal Desse modo, a análise mais ampla dos dados mais recentes do Novo Caged segue apontando continuidade da perda de brilho do mercado de trabalho formal no Brasil, embora as condições gerais de emprego e renda sigam consideravelmente favoráveis.
Dialogando com esse último comentário, a PNAD Contínua do trimestre encerrado em junho revelou que a taxa de desemprego, quando efetuado processo de ajuste sazonal, continuou em gradual processo de elevação, operando em torno de 5,5%. Ainda dentro do relatório da PNAD, foi observada queda dos rendimentos reais dos trabalhadores. Para a sequência de 2026, acreditamos que a tendência seja de continuidade de sutil aumento da taxa de desemprego. Esse possível movimento conversa com a hipótese de desaceleração da atividade econômica no segundo semestre.
Taxa de desemprego com ajuste sazonal (PNAD) e rendimento médio real no Brasil
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