2ª onda de Covid-19 e desenvolvimento de vacinas: Panorama e Perspectivas

26/06/2020

2ª onda de Covid-19 e desenvolvimento de vacinas: Panorama e Perspectivas

Os mercados financeiros apresentaram uma melhora significativa nas últimas semanas. Tal melhora se deveu sobretudo às perspectivas positivas em relação à recuperação das economias que estão relaxando medidas de isolamento social (lockdown), em conjunto com o suporte de estímulos fiscais e monetários [1] massivos. Também contribuiu, embora em menor escala, o arrefecimento das tensões entre EUA e China.

Não obstante, várias regiões dos EUA apresentaram crescimento expressivo no número de casos confirmados de Covid-19 nos últimos dias, que foi acompanhado de um forte aumento nas hospitalizações em alguns estados. Também foram registrados novos surtos de coronavírus em regiões da Alemanha, China e Austrália – entre outros países que, em grande parte, superaram a primeira etapa da doença.

Desta forma, apesar do panorama geral permanecer benigno, é importante avaliar os riscos presentes no cenário. Neste sentido, acreditamos que o principal deles seja o de que uma nova onda de casos de Covid-19 sobrecarregue os sistemas de saúde e obrigue as autoridades a adotarem novamente medidas de lockdown. Esse risco deve permanecer até alguma vacina ou tratamento se mostre eficaz e esteja disponível para utilização em larga escala.

O objetivo deste comentário é discutir a ressurgência de casos de coronavírus assim como apresentar uma breve atualização sobre o desenvolvimento de algumas vacinas.

SUSCETIBILIDADE A UMA SEGUNDA ONDA DE CONTAMINAÇÕES

Entre as principais economias, os EUA apresentam maior risco de uma nova onda de infecções pela Covid-19, sobretudo pelo fato de a reabertura da economia do país ter iniciado antes de uma queda expressiva no número de casos ter ocorrido.

Conforme apresentado na Figura 1, o país registrou crescimento significativo no número de novos casos nos últimos dias – a média móvel de 7 dias [2] indica que houve um crescimento de cerca de 30% no número de novos casos, em comparação com a semana anterior, tomando como base dados da última terça-feira (23). A situação é ainda mais crítica em estados como Texas – que registrou crescimento semanal de 90% no número de casos, também considerando a média móvel de 7 dias. Califórnia (46%), Flórida (66%) e Arizona (76%) também apresentaram altas expressivas nessa base de comparação.

EUA – Novos Casos de Covid-19

Média Móvel de 7 dias 

Figura 1: Número de casos de Covid-19 confirmados diariamente nos EUA;
Fonte: Bloomberg. Elaboração: SOMMA Investimentos.

É importante destacar que parte do aumento no número de casos pode ter relação com a maior realização de testes no país – houve aumento de aproximadamente 25% no número de testes feitos diariamente no mês de junho. No entanto, o maior número de testes não é o suficiente para explicar o crescimento de casos, que está relacionado à maior transmissão comunitária do coronavírus no país.

Uma maneira de avaliar a influência da disponibilidade de testes sobre o número de casos é através da proporção dos testes realizados que resultaram positivo (taxa de positividade [3]). Nos últimos dias, os EUA registraram um aumento da taxa de positividade, o que indica que a maior disponibilidade de testes não é o único fator por trás do crescimento de novos casos. No estado da Flórida, por exemplo, a proporção de testes que resultaram positivo subiu de 10,8% para 15,9% nesta quarta-feira (24).

Além disso, o número de hospitalizações em alguns estados também indica que o crescimento de novos casos pode não estar acontecendo apenas como resultado do número maior de testes. Texas e Arizona, por exemplo, registraram crescimento semanal de 37% e 29%, respectivamente, no número de hospitalizações por Covid-19 em apenas uma semana.

Além da evidência de maiores casos de Covid-19 nos EUA, outros países também apresentaram, nos últimos dias, alguma ressurgência de casos:

  • Na Alemanha, o governo do estado de Renânia do Norte-Vestfália retomou medidas de isolamento social após a confirmação de que mais de 1,5 mil funcionários de um frigorífico contraíram o coronavírus.
  • Na capital da China, Pequim, o surto em um mercado de alimentos – que resultou em 236 casos confirmados até esta quarta-feira (24) – levou autoridades a fecharem escolas e adotarem medidas de restrição à movimentação de pessoas, tais como redução do transporte público e cancelamento de voos.
  • O segundo maior estado da Austrália, Victoria, também registrou um aumento de casos na última semana e, como resultado, anunciou a retomada de medidas de isolamento social.

Os exemplos anteriores mostram que ainda há um risco expressivo decorrente da ressurgência do coronavírus em inúmeros países e regiões. Acreditamos que seja cedo para considerar o aumento no número de casos como resultado apenas da reabertura das economias, uma vez que outros países que conduziram o relaxamento das medidas de isolamento social com maior cautela não apresentaram um crescimento forte de novos casos.

Alguns exemplos de êxito na reabertura de suas economias foram Nova Zelândia, Japão, Noruega e outros países da Europa. No entanto, a reabertura nesses países ocorreu após uma redução expressiva no número de casos. Além disso, foi acompanhada da manutenção de medidas de distanciamento social, assim como melhores práticas de higiene [4] – medidas que tem o potencial de reduzir a propagação do coronavírus.

De maneira geral, a disponibilidade de alguma vacina ou tratamento será essencial para se mitigar o risco de que novas ondas de contaminações sobrecarreguem os sistemas de saúde e, por conseguinte, levem as autoridades a adotarem novamente medidas de lockdown.

É interessante notar, ainda, que existem discussões sobre a imunidade de pessoas que já tenham contraído o vírus, questão crucial para uma reabertura mais segura das atividades. Estudos indicam que ainda não há certeza se a imunidade realmente é adquirida entre aqueles que já testaram positivo para a COVID-19 e por quanto tempo eles estão protegidos. Assim, uma mesma pessoa pode contrair o novo coronavírus mais de uma vez, o que também poderia agravar a propagação e gerar, consequentemente, novas ondas da pandemia.

VACINAS EM DESENVOLVIMENTO

Tendo em vista a importância do desenvolvimento de alguma vacina para a superação da Covid-19, faremos um breve levantamento de algumas das principais candidatas – que superaram ao menos alguma fase preliminar para atestar sua eficácia.

Conforme ilustrado na Figura 2, o desenvolvimento de alguma vacina compreende 5 etapas principais. As etapas iniciais incluem a pesquisa básica e testes pré-clínicos. A Fase I de avaliação clínica inclui os primeiros testes em humanos e tem por objetivo avaliar a segurança da vacina – por conta disso, os testes são conduzidos em um número relativamente pequeno de voluntários. A Etapa II, que abrange uma amostra maior de voluntários, inclui a definição do tamanho ideal da dose a ser aplicada e avalia em um grau maior a resposta do sistema imunológico. Por fim, a Etapa III é a última etapa de testes clínicos e é conduzida sobre um número grande de voluntários (possivelmente milhares) e objetiva a verificação concreta da eficácia.

Caso a vacina obtenha sucesso após a Etapa III, ela é avaliada por agências reguladoras para a concessão do registro sanitário – etapa que antecede a disponibilização da vacina para a população em geral. É importante observar que, mesmo após a comprovação de sua eficácia na etapa III, ela continua sendo monitorada pelas entidades reguladoras para se verificar a possibilidade de efeitos adversos não detectados inicialmente.

Figura 2: Etapas de Desenvolvimento de Vacinas;
Fonte: Instituto Butantan. Elaboração: SOMMA Investimentos.

Tendo em vista as inúmeras etapas necessárias para o desenvolvimento de uma vacina segura, a elaboração, quando exitosa, geralmente demanda alguns anos – a vacina mais rápida produzida até hoje foi contra a caxumba, que levou quatro anos para ser desenvolvida. No entanto, autoridades de saúde – como o Dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos – estimam que uma vacina para a Covid-19 levará entre 12 e 18 meses para estar disponível – ou seja, estaria disponível em meados de 2021.

Segundo a OMS, há mais de uma centena de vacinas sendo elaboradas por inúmeras empresas e institutos de biotecnologia – das quais 16 se encontram em processo de avaliação clínica e 125 em etapas iniciais. A Tabela 1 lista as candidatas que se encontram em estágios mais avançados de desenvolvimento.

Tabela 1: Vacinas em estágio clínico;
Fonte: OMS. Elaboração: SOMMA Investimentos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ressurgência de casos de coronavírus nos EUA e em outras regiões evidencia um cenário ainda complexo para a recuperação da maior parte das economias. Por um lado, o choque negativo sobre a atividade, gerado pelas medidas de isolamento social que foram adotadas, levou a uma forte e abrupta contração da atividade econômica. De outro, a recuperação das economias em conjunto com inúmeros estímulos fiscais e monetários gerou uma perspectiva de melhora nas condições econômicas à frente.

Avaliamos que uma segunda onda de contaminações pela Covid-19, que possa levar economias a reintroduzirem as medidas de lockdown (uma espécie de coma induzido), seja atualmente o principal fator de risco para o cenário prospectivo. Esse risco deve estar presente até que se tenha alguma vacina ou tratamento amplamente disponível – o que pode acontecer no decurso de 2021, tendo em vista a existência de um número grande de vacinas em estágios avançados de desenvolvimento.

Conforme destacamos, ainda não há evidências claras de que a reabertura das economias, por si só, seja responsável pelo aumento no número de novos casos – sobretudo pelo exemplo de países que relaxaram o isolamento social e não apresentaram evidências de ressurgência de casos. No entanto, uma reabertura gradual – que ocorra após a redução expressiva no número de novos casos – acompanhada da manutenção de medidas de distanciamento social é essencial para reduzir a possibilidade de novas infecções.

Outra observação importante é que, mesmo no caso de uma nova onda de casos de coronavírus, medidas drásticas de lockdown podem não ser reintroduzidas em inúmeros países. Isso pode acontecer por uma pressão política [5] das autoridades; neste caso, inevitavelmente, é de se esperar um impacto humano significativo, conquanto o impacto econômico possa ser apenas parcialmente reduzido. Outro fator que pode evitar a necessidade de reintrodução de lockdown é a melhor capacidade de rastrear e isolar as pessoas que contraírem a Covid-19 e pessoas que tiverem contato com as infectadas – neste caso, tanto os impactos econômicos quanto humanos podem ser reduzidos.

[1] Via reduções de taxas de juros, ampliação de programas de compras de ativos (quantitative easing), entre outras medidas adotadas pelos Bancos Centrais.
[2] A utilização de uma média móvel, neste caso de 7 dias, possibilita uma suavização do indicador.
[3] Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de positividade deveria permanecer próxima de 5% durante 14 dias para um país poder aliviar as medidas de isolamento social com maior segurança.
[4] A crise do coronavírus terá consequências maiores sobre países que possuam sistemas de saúde e condições sanitárias mais frágeis – realidade da maior parte dos países pobres e emergentes.
[5] Este pode ser o caso dos EUA, por exemplo, tendo em vista as eleições gerais de novembro.

 

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