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“The winner takes it all”: primeiro turno redesenha a corrida presidencial e anima os investidores

Cenário Econômico | Análise da Semana — 05 a 09 de outubro de 2026
Por César Garritano, Economista-chefe da SOMMA Investimentos

  • Os mercados brasileiros apresentaram exuberante valorização na semana.
  • Os investidores reagiram ao primeiro turno das eleições presidenciais do Brasil. Os resultados para a presidência da República, Congresso Nacional e Estados penderam ainda mais para a direita do espectro político.
  • A agenda macroeconômica da semana, embora relevante com as divulgações da ata do FOMC e do IPCA de setembro, ficou amplamente em segundo plano.
  • No momento de divulgação deste relatório, o Ibovespa avançava 13,4%, o Real apreciava 4,5% e a curva de juros nominal fechava 160 bps nos vértices de maior prazo.

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CENÁRIO INTERNACIONAL

No cenário internacional, a semana foi de poucas atualizações expressivas no campo geopolítico, o que trouxe a ata da reunião do FOMC para o patamar de principal destaque da agenda de divulgações.

A minuta da reunião de setembro, na qual o Fed elevou os juros em 0,25 p.p., para o intervalo entre 3,75% e 4,00%, por unanimidade, não trouxe grandes novidades ao mercado. Os participantes avaliaram que a inflação segue elevada e sem progresso suficiente, pressionada pela energia em meio às tensões geopolíticas e pelos investimentos em inteligência artificial, com o PCE em 3,8% e o núcleo em 3,4% em agosto, e riscos inflacionários pendendo para a aceleração. Ao mesmo tempo, a atividade segue sólida e os riscos para o mercado de trabalho são considerados equilibrados.

Embora a maioria dos membros tenha indicado que uma nova alta provavelmente será apropriada até o fim do ano, não esperamos elevação na reunião de 27 e 28 de outubro. A sinalização recente de John Williams, presidente do Fed de Nova York, reforça essa avaliação: o dirigente afirmou que não há urgência para um novo aperto monetário e que as decisões devem depender da evolução dos dados econômicos, embora uma alta adicional até dezembro permaneça possível. Por outro lado, Alberto Musalem, do Fed de St. Louis, reiterou a necessidade de novas altas para conter a inflação, evidenciando que parte do comitê continua favorável a um aperto monetário adicional. Nesse contexto, avaliamos que o Fed deverá manter os juros inalterados em outubro, aguardando novos dados de inflação e a evolução dos preços de energia antes de tomar novas decisões.


CENÁRIO DOMÉSTICO

No cenário doméstico, a agenda macroeconômica teve papel secundário na formação de preços ao longo da semana, dada a maior relevância atribuída ao ambiente eleitoral.

Mesmo com menor protagonismo, merece destaque a divulgação do IPCA de setembro, que registrou variação de 0,82% M/M, acima da mediana das projeções de mercado (0,73%), o que reforça a perspectiva de uma dinâmica inflacionária menos favorável no último trimestre do ano.

Gráficos do IPCA de setembro de 2026

Na abertura do indicador, foi revelado que Alimentação no Domicílio acelerou para 0,96%, revertendo parcialmente as deflações acumuladas nos três meses anteriores. Apesar da variação expressiva, o resultado ficou abaixo da alta de 1,15% projetada pelo consenso, configurando uma surpresa relativamente benigna para o componente. Os preços de bens industriais também apresentaram comportamento benigno, em linha com as expectativas e confirmando a desaceleração antecipada pelo mercado.

A principal surpresa negativa na composição do índice, por sua vez, concentrou-se em Serviços. A métrica subjacente do componente desacelerou, de 0,40% em agosto para 0,36% em setembro, mas permaneceu acima da mediana das projeções, de 0,27%. Além disso, linhas de inflação de serviços acumuladas em 12 meses ganharam tração na margem, o que dificulta a identificação de sinais mais consistentes de arrefecimento das pressões nesse segmento.

Em alguma medida, leituras menos favoráveis para a inflação ao longo dos próximos meses já faziam parte do nosso cenário-base. De um modo geral, a aproximação das festas de fim de ano introduz uma sazonalidade altista para componentes mais sensíveis ao ciclo econômico, como aqueles ligados aos Serviços. Fora isso, a transmissão dos efeitos do El Niño aos preços dos alimentos já começa a ser verificada – talvez, nesse momento, menos por meio de choques efetivos de oferta e mais pela elevação antecipada do prêmio de risco associado ao fenômeno climático. Esse canal ajuda a explicar parte da dinâmica recente dos preços ao produtor no atacado e também a leitura de setembro dos preços ao consumidor.

Embora o resultado do IPCA reforce a perspectiva de uma trajetória inflacionária mais adversa no curto prazo, a reação dos mercados foi limitada, e a curva de juros seguiu em fechamento mesmo após a divulgação. Em nossa avaliação, esse comportamento reflete um conjunto de fatores. Em primeiro lugar, a percepção de que os riscos inflacionários já eram conhecidos e estavam, ao menos parcialmente, incorporados às expectativas, captadas pelo Boletim Focus. Em segundo lugar, pode prevalecer a avaliação de que os riscos prospectivos, sobretudo os de origem climática, devem se mostrar transitórios, com impacto limitado sobre as promessas de “calibragem” monetária. O principal vetor, contudo, permanece sendo o cenário eleitoral, que tem alimentado expectativas de alternância de poder e sustentado a apreciação cambial, favorecendo o fechamento da curva de juros nominal doméstica.

Abertas as urnas do primeiro turno das eleições no último domingo (4), os resultados mostraram um Brasil que pendeu ainda mais para a direita do espectro político, em especial para as candidaturas ligadas ao bolsonarismo.

Por exemplo, nota-se o fortalecimento da direita no Congresso Nacional, principalmente representada pelo Partido Liberal (PL). Abaixo, ilustra-se a força do partido de Flávio Bolsonaro no Senado Federal, onde a bancada quase dobrou em quatro anos, passando de 15 para 28 cadeiras, de longe a maior da Casa. O movimento também apareceu nos estados: o PL elegeu cinco governadores já no primeiro turno (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima), enquanto Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi reeleito em São Paulo.

Bancada do PL no Senado Federal e resultados do primeiro turno das eleições de 2026

Tão ou mais notável foi o desempenho de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. Embora as pesquisas da semana anterior ao pleito seguissem mostrando uma disputa acirrada, era basicamente ínfima a fatia dos analistas e dos agentes do mercado financeiro que trabalhava com a hipótese de Flávio terminar à frente de Lula no primeiro turno. Com 100% das urnas apuradas, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos (cerca de 56,1 milhões de votos), contra 45,16% de Lula (53,9 milhões). A diferença, de 1,87 ponto percentual, equivale a pouco mais de 2,2 milhões de votos. A abstenção seguiu em elevação no país e atingiu 21,08%.

Além disso, os primeiros dias após o primeiro turno foram, inegavelmente, favoráveis ao primogênito de Jair Bolsonaro. Enquanto Lula e seus assessores mostravam-se atordoados com os resultados e demoravam a recalcular a rota para disputar o segundo turno, Flávio fortalecia o apoio de partidos e de seus principais concorrentes na disputa presidencial. Já na segunda-feira, Romeu Zema e o ex-presidente Michel Temer declararam voto no senador. Na sequência, vieram a aproximação com Ronaldo Caiado, o apoio de Augusto Cury, a adesão do Republicanos e de outras legendas.

Ao mesmo tempo, a primeira pesquisa Datafolha de intenção de voto para o segundo turno, divulgada na noite de quinta-feira (8), apontou vantagem de Flávio sobre Lula: 52% a 48% dos votos válidos. Mais do que o placar, chamam atenção dois detalhes: Flávio herda a maior fatia dos eleitores dos candidatos derrotados (46%, contra 32% de Lula) e tem rejeição menor que a do petista (43% contra 46%).

Nossa hipótese de trabalho é de que Flávio Bolsonaro vença as eleições presidenciais. A vantagem no primeiro turno, o alinhamento da maior parte dos candidatos derrotados e de seus partidos, e o notável desgaste da figura de Lula sustentam esse cenário. A partir disso, é possível meditar sobre ao menos dois caminhos. De um lado, pelo aspecto negativo, sobressairia uma espécie de “revanchismo” contra as instituições, destacadamente o STF, agente-chave que selou a sorte de Jair Bolsonaro mais recentemente. De outro lado, positivamente, existe a chance de Flávio, logo no início de seu mandato, usar seu capital político para avançar na adoção de um amplo pacote de medidas de arrumação das contas públicas, sendo o tema fiscal, inegavelmente, a “perna fraca” da macroeconomia brasileira há mais de uma década.

Obviamente, a realidade do cotidiano, ainda mais a da cena política do Brasil, e mais ainda considerando nosso país inserido em importantes debates globais, não permite ser reducionista e maniqueísta a esse ponto, ou seja, apostar totalmente em um lado ou em outro. Ainda assim, concordamos com a visão mais recente embutida nos preços do mercado financeiro após as eleições. Dito de outra forma, nossa hipótese de trabalho é a de que Flávio agirá de modo correto no tratamento das contas públicas já no começo de seu mandato.

Em resumo, os caminhos para a política fiscal serão o pano de fundo para a economia e para os mercados financeiros em 2027. Com Flávio Bolsonaro na Presidência, um Congresso e governos estaduais mais alinhados à direita e um diagnóstico fiscal já mapeado, esperamos que o novo governo use o capital político inicial em medidas estruturais pelo lado da despesa. Não é preciso estabilizar a dívida já em 2027: basta uma expectativa de inflexão da trajetória até o fim da década para uma nova reprecificação do risco-país e da curva de juros. Esse é o pilar de todo o cenário.


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